Açaí entra na rota das commodities e preço dispara

Alimento tradicional da cultura amazônica, açaí entra na rota das commodities e preço dispara 09.08.23 | Luisa Coelho, com colaboração de Amanda Flora, enviadas ao Pará Demanda internacional pelo fruto dificulta acesso da população local e coloca pesquisadores em alerta para a biodiversidade da floresta A safra do açaí acontece entre junho e dezembro. Historicamente extrativista, o alimento já foi conhecido como pão dos pobres, mas seu atual modo de produção e altos preços têm modificado o consumo na região amazônica, bem como no Brasil e no mundo. Transformado em matéria-prima para sorvetes, sobremesas e produtos de linha fit, o fruto vem reproduzindo padrões de outros alimentos que hoje são considerados commodity, mesmo que a cadeia de produção ainda seja muito permeada pelas comunidades ribeirinhas locais.  “Esse açaí, que não é o açaí que faz parte da cultura alimentar paraense, é comercializado com roupa de sustentável, de superalimento, de defensor da Amazônia, de que sai das comunidades, de que a Amazônia está em pé. E aí? E assim ele vai se tornando uma commodity”, disse Tainá Marajoara, que é descendente do povo indígena Aruã, do Marajó, e atua como pesquisadora, cozinheira e ativista pela preservação das culturas alimentares. Chegamos em Belém do Pará em dezembro de 2022, já era o final da safra e o começo do período de chuvas intensas. A ideia era percorrer os caminhos pelos quais o fruto passa para a gravação do “Açaí, um fruto viajante”, segundo episódio da 6ª temporada do Prato Cheio. Paramos para almoçar e conversar com Tainá no Iacitatá Amazônia Viva, ponto de cultura alimentar que ela fundou na capital paraense.  Segundo Tainá, assim como a soja e os produtos transgênicos em geral, em vez de gerar maior distribuição de renda e maior qualidade de vida, a ascensão do produto no mercado vem gerando devastação, utilização de agrotóxicos, empobrecimento da população e uma situação de insegurança alimentar. “Quando o açaí deixa de ir para a mesa das famílias e passa a ser comercializado para fora, essas famílias ficam reféns das indústrias de alimentos e dos seus mercadinhos, com os ultraprocessados que se estabelecem nas comunidades ou que passam nas suas beiradas”, disse. O açaí é uma comida histórica de povos originários e tradicionais pelo seu valor nutricional e alta disponibilidade para as comunidades amazônicas. É também um símbolo da cultura paraense e inspirou a música de Nilson Chaves e João Gomes, Sabor Marajoara, uma espécie de hino local. As palmeiras do açaí, os açaizeiros, são encontradas com frequência em solo de várzea e aproveitam todos os nutrientes que descem com as águas dos rios, conta Tainá. Atualmente, além da contaminação fluvial que decorre, principalmente, das atividades da mineração na região, outro fenômeno preocupa: a açaização. Um estudo publicado no periódico Biological Conservance, que analisou áreas no estuário do rio Amazonas no Pará, mostrou uma mudança estrutural na floresta por consequência do manejo do fruto. Em regiões onde há intenso manejo, com 600 touceiras de açaí, as funções e os serviços que as espécies desempenham na floresta caíram pela metade. Isso se traduz no empobrecimento do solo e diminuição da biodiversidade, colocando em risco árvores emblemáticas da Amazônia, como a sumaúma e a embaúba.  A pesquisa, que tem como principal autor o biólogo Madson Freitas, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), coloca em xeque o discurso comum de que o açaí e outros produtos de base extrativista sejam sinônimos de sustentabilidade. Em outra matéria de O Joio e O Trigo, a gente já tinha mostrado como o agronegócio vem se apropriando do conceito de bioeconomia a fim de alavancar seus negócios, valendo-se do discurso socioambiental.  Com a descoberta do açaí pelo restante do país e do mundo, o consumo vem aumentando exponencialmente. As exportações de açaí paraense tiveram um aumento de quase 15.000% nas vendas internacionais entre 2011 e 2020, segundo a Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), a partir de dados da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (SEDAP). Com a alta demanda, a área plantada passou de 77,6 mil hectares para 188 mil hectares entre 2010 e 2019, o que demonstra o perigo da criação de monoculturas de açaí em regiões de floresta. A Abrafrutas ainda chama a atenção para os impactos no consumo local de açaí, que fizeram com que os chamados “batedores”, profissionais que processam o alimento em pequenos empreendimentos, se manifestassem publicamente contra a escassez e a alta nos preços do fruto. Foi também o que ouvimos de diversas pessoas no Mercado Ver-o-Peso, em Belém: muitas consomem o fruto em todas as refeições, mas estão diminuindo a quantidade devido ao preço. “Se esse consumo fosse algo de fato sustentável, não teria um milionário e 50 famílias em situação de pobreza”, disse Tainá Marajoara. Segundo ela, é preciso que as pessoas se conscientizem sobre a Amazônia e a superexploração de um único produto. “Então o que tem que ser feito é cada vez mais o consumidor se perguntar: Por que é que eu quero comer açaí da Amazônia e não estou tomando a juçara daqui dos caiçaras?”.   No ano passado, produzimos um episódio de podcast sobre a palmeira juçara, que dá o palmito e um fruto similar ao açaí. No episódio “Juçara, um símbolo de resistência“, falamos sobre o simbolismo da juçara para a Mata Atlântica e seus habitantes.  . » O Joio e O Trigo é uma instituição sem fins lucrativos e todo o nosso conteúdo é feito sob a licença Creative Commons. 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